BITÁCORA DO FUNDADOR

Capítulo I — A câmera como passaporte
Não me lembro de ter decidido ser fotógrafo. A fotografia simplesmente esteve ali desde o começo.
Eu tinha seis anos quando peguei uma câmera pela primeira vez. Era uma Halina Roy 127 que pertencia à minha mãe. Naquela época, não imaginava que aquele pequeno objeto me acompanharia durante grande parte da minha vida nem que acabaria me levando a percorrer continentes, conhecer culturas e construir uma forma particular de entender o mundo.
Durante minha adolescência, a câmera encontrou seu primeiro território natural na cena musical underground de Buenos Aires. Enquanto muitos buscavam retratar o espetáculo, eu me sentia atraído pelo que acontecia ao redor do palco: os ensaios, os camarins, as conversas, os gestos que nunca chegavam ao público. Foi ali que compreendi que uma fotografia podia contar muito mais do que aquilo que aparecia diante da lente.
Essa busca me levou à Escola Nacional de Belas Artes Prilidiano Pueyrredón, onde cursei a Licenciatura em Artes Plásticas com especialização em Linguagem Plástica e Estética, além do Professorado em Xilogravura. Mais do que aprender técnicas, descobri que toda imagem é uma construção cultural e que a arte constitui uma linguagem capaz de explicar uma época.
Ao finalizar meus estudos, surgiu uma oportunidade inesperada: um contrato com o Bureau of Arts de Melbourne, na Austrália. Durante um ano, participei de projetos editoriais desenvolvendo design gráfico, maquetes de livros e fotografia documental sobre o território australiano. Muitas daquelas imagens fariam parte de publicações turísticas que buscavam mostrar um continente tão vasto quanto diverso.
A Austrália me ensinou que viajar não consiste unicamente em se deslocar entre países. Significa aprender a observar de outra maneira.
Esse aprendizado continuou em Barcelona.
Ingressei na Bassat Ogilvy como assistente de fotografia e, com o tempo, passei a integrar equipes de produção fotográfica e scouting para passarelas de moda. A convivência cotidiana com modelos, estilistas e equipes criativas me permitiu desenvolver um olhar baseado na confiança e no respeito pela pessoa por trás da imagem. Aquela experiência abriria posteriormente as portas para colaborar em produções ligadas a firmas internacionais como Victoria’s Secret, Bordelle e outras marcas do universo da moda e da lingerie.
Ao mesmo tempo, Barcelona despertou outra vocação que acabaria me acompanhando por muitos anos: o mercado da arte.
Comecei a trabalhar como marchand, levando para a Espanha a obra de pintores, gravadores e escultores argentinos. Cada exposição era muito mais do que uma operação comercial; era um exercício de diplomacia cultural. Descobri que uma obra podia viajar milhares de quilômetros e continuar falando a mesma língua de quem estava disposto a contemplá-la.
Aqueles anos também foram marcados por encomendas para campanhas e produções de empresas como SEAT, Cinzano, Freixenet, Alexander McQueen, Chanel e Carolina Herrera. Paralelamente, iniciei meus primeiros trabalhos de fotografia documental para a revista L’Óvarie, onde recuperei o prazer de observar a realidade sem as limitações da publicidade.
Com o tempo, compreendi que a fotografia nunca foi somente uma profissão.
Foi meu passaporte.
Um idioma compartilhado.
A ferramenta que me permitiu entrar em mundos completamente distintos e descobrir que, por trás de cada história, sempre existe outra história esperando para ser contada.
Capítulo II — A linguagem dos mercados
Existe uma ideia muito difundida segundo a qual a arte e as finanças pertencem a universos opostos. Durante anos, ouvi que a economia era o território dos números e que a cultura era o da sensibilidade. No entanto, minha experiência acabou demonstrando que há uma ponte muito sólida entre ambos os mundos.
Depois de me formar economista pela Universidade de São Paulo (USP), iniciei uma nova etapa dedicada ao desenvolvimento de negócios internacionais. Comecei assessorando grandes empresas brasileiras do setor de materiais para construção, acompanhando processos de expansão para novos mercados e compreendendo como as cadeias de produção, a logística e o comércio internacional podem transformar economias regionais.
Em 2007, viajei pela primeira vez a Foshan, na China. Aquela viagem marcou um ponto de inflexão. Abrimos um escritório para fortalecer o vínculo entre a América Latina e a Ásia e, a partir dali, começaram anos de trabalho em setores tão diversos como a indústria, as energias renováveis e as tecnologias de valorização energética de resíduos (Waste to Energy), a energia fotovoltaica e a energia maremotriz.
Foi nesse contexto que assumi a representação da White Westinghouse Plasma Corp no Peru, Argentina e Uruguai. No início, pensei que o desafio consistisse em comercializar tecnologia e capacitar equipes técnicas. Com o tempo, compreendi que o verdadeiro trabalho era outro: tornar os projetos viáveis.
A diferença é enorme.
Uma tecnologia pode ser extraordinária, mas sem um modelo financeiro sólido nunca se torna realidade. O mesmo ocorre com um museu, um festival, uma editora ou um centro cultural. As ideias precisam de estrutura, confiança e mecanismos capazes de transformar uma visão em um investimento sustentável.
Essa compreensão me levou a aprofundar meus estudos em finanças por meio de uma especialização desenvolvida através do Instituto Neumann com formação acadêmica da Universidade de Yale. Ali me especializei em instrumentos financeiros aplicados ao desenvolvimento de projetos internacionais: títulos, garantias, cartas de crédito, estruturação financeira e administração de ativos em fundos de investimento e plataformas de alto rendimento.
Durante os anos seguintes, participei da estruturação e viabilização de projetos em diferentes continentes, colaborando com governos da América Latina e da África, instituições financeiras internacionais, fundos de investimento e entidades bancárias como UBS, Barclays, HSBC e, posteriormente, First Abu Dhabi Bank.
Com visão de longo prazo e projetos capazes de gerar impacto, me aproximei novamente do mundo da cultura. Trabalhando em modelos onde os investimentos podiam respaldar iniciativas ligadas à sustentabilidade, à preservação ambiental, ao patrimônio e às indústrias culturais e criativas. A cultura deixava de ser um gasto para se tornar um ativo estratégico de desenvolvimento.
Minha última etapa no sistema financeiro transcorreu nos Emirados Árabes Unidos, atuando junto ao First Abu Dhabi Bank. De lá, tive a oportunidade de observar de perto um dos projetos culturais mais ambiciosos do século XXI: a construção do Louvre Abu Dhabi.
Para além da arquitetura ou do prestígio do museu, o que foi verdadeiramente revelador foi compreender a magnitude do planejamento necessário para converter uma visão cultural em uma política de Estado. Também foi uma oportunidade excepcional para conhecer o funcionamento do mercado internacional da arte, estabelecer vínculos com colecionadores, galerias e instituições do Oriente Médio e de Hong Kong, e observar como a cultura pode ocupar um lugar central dentro de uma estratégia de desenvolvimento nacional.
Olhando para trás, entendo que aqueles anos nunca me afastaram da arte.
Pelo contrário, me ensinaram que por trás de cada museu, de cada bienal, de cada festival, de cada biblioteca e de cada projeto editorial existe uma arquitetura invisível composta por planejamento, cooperação, financiamento e confiança.
Compreender essa linguagem mudou para sempre minha forma de pensar a cultura.
Hoje sei que uma boa ideia precisa de sensibilidade para nascer, mas também precisa de estrutura para perdurar.
E essa convicção é, talvez, um dos pilares mais importantes sobre os quais se constrói o Studio Nereus Cultura: construir uma ponte entre a criação artística e os mecanismos que a tornam possível, sustentável e capaz de gerar transformação na sociedade.
Capítulo III — Escolher um porto
Depois de muitos anos vivendo e trabalhando entre a América, a Europa, a Ásia e o Oriente Médio, compreendi que todo projeto precisa de um lugar a partir do qual olhar o mundo.
Em 2018, esse lugar passou a ser o Uruguai.
A decisão não respondeu unicamente a razões pessoais. Foi uma escolha estratégica. Situado entre a Argentina e o Brasil, dois dos principais mercados culturais da América do Sul, o Uruguai reunia condições difíceis de encontrar em outros países da região: estabilidade institucional, segurança jurídica, capacidade logística e uma reconhecida tradição democrática.
Mas havia algo mais.
O Uruguai possui uma escala humana que permite experimentar. É um território onde as ideias podem se desenvolver com proximidade, construir comunidade e, ao mesmo tempo, projetar-se internacionalmente. Essa combinação transformou o país no espaço ideal para começar uma nova etapa.
A partir daqui, começamos a pensar a cultura não como uma sucessão de eventos, mas como um ecossistema.
Nasceram laboratórios culturais onde artistas, pesquisadores e profissionais de diferentes disciplinas podiam se encontrar para desenvolver novas ideias. Continuamos realizando ensaios fotográficos documentais e editoriais, sempre com a convicção de que a imagem continua sendo uma ferramenta para compreender a identidade dos territórios.
Também começaram projetos que, à primeira vista, pareciam pertencer a mundos diferentes. Encontros de carros clássicos, apoio a pilotos de drift, produções audiovisuais e experiências ligadas ao automobilismo.
No entanto, por trás de cada iniciativa existia a mesma pergunta:
Como construir comunidade através de uma paixão compartilhada?
Com o tempo, compreendi que a cultura também habita nesses espaços onde as pessoas se reúnem para conservar a memória técnica, celebrar o design, compartilhar conhecimentos ou transmitir uma tradição.
O Uruguai deixou de ser unicamente o lugar onde vivíamos.
Se tornou o porto a partir do qual começar uma nova navegação.
Capítulo IV — Quando as ideias encontraram um nome
Cada projeto desenvolvido ao longo dos anos parecia pertencer a uma disciplina distinta.
Fotografia.
Arte.
Economia.
Comunicação.
Festivais.
Televisão.
Música.
Cinema.
Cooperação internacional.
Durante muito tempo, pensei que eram caminhos paralelos, mas com o tempo descobri que todos conduziam ao mesmo lugar.
Foi no Uruguai que essa ideia terminou de tomar forma e recebeu um nome: Studio Nereus.
A partir desta plataforma, começaram a se desenvolver iniciativas que buscavam fortalecer as indústrias culturais e criativas sob uma perspectiva integradora. Nasceram novos festivais, programas audiovisuais, espaços de formação e projetos de circulação cultural que entendiam o território como um ponto de encontro e não como um limite.
Um desses projetos foi o NEREUS ALT FEST, o primeiro festival de música alternativa da Costa de Oro, concebido como um espaço para visibilizar artistas emergentes e aproximar novas propostas musicais a uma região tradicionalmente afastada dos grandes circuitos culturais. Com o tempo, o projeto incorporou a participação de músicos nacionais e internacionais de jazz, rock e música eletrônica, consolidando uma rede de colaboração que transcendia o próprio festival.
Ao mesmo tempo, desenvolvemos produções audiovisuais e eventos esportivos ligados à TNT Sports no Chile, ampliamos a representação de artistas e criadores, e colocamos em funcionamento um departamento dedicado à distribuição de cinema independente. Graças a essa iniciativa, filmes de diferentes países começaram a percorrer salas, centros culturais e espaços comunitários de todo o Uruguai, aproximando novos olhares a públicos que muitas vezes permanecem fora dos grandes circuitos comerciais.
Cada um desses projetos confirmou uma mesma convicção.
A cultura não precisa se concentrar nas grandes capitais para gerar impacto. Pode nascer em pequenas comunidades, crescer mediante a cooperação e projetar-se para o mundo quando existe uma rede que acompanha seu desenvolvimento.
Hoje, o Studio Nereus Cultura continua construindo essa rede.
Não como uma empresa dedicada a produzir eventos.
Não como uma agência de comunicação.
Mas como um Network Internacional para a Cultura e as Indústrias Criativas, convencido de que o conhecimento compartilhado, a cooperação e a criatividade constituem alguns dos recursos mais valiosos para o desenvolvimento de nossas sociedades.
Depois de tantos anos percorrendo diferentes continentes, compreendi que a verdadeira viagem nunca consistiu em mudar de país.
Consistiu em aprender a conectar pessoas.
E essa travessia, na verdade, está apenas começando.